Pular para o conteúdo principal

Demasiado Humano

- Maldição! Mil vezes amaldiçoo o dia em que me tornaram humano! Muito satisfeito estava, e tranquilo, sendo apenas um esquilo... Mas eis que me transformam num humano, humano! Se fosse apenas isso, bom até estaria, mas também me deram a maldita capacidade de pensar, fruto dessa coisa a que chamam cérebro, ou será espírito? Que seja! Para os diabos! A única coisa que sei é que depois disso nunca mais pude sentir o doce aroma e o frescor da mãe natureza como antes. Há sempre uma angústia, uma tristeza, um vazio, uma decepção, um querer e não ser... Enfim, há sempre um peso que me impede de me sentir leve como outrora! Ah, e como invejo meus irmãos esquilinhos, que não precisam jamais pensar, ou refletir, sobre qualquer sentimento. Não têm dúvidas sobre nada, tudo para eles é claro e simples. Observe-os lá, tão tranquilos, tão puros... Por quê? Porque dentre todos tivera eu de ser o sorteado? O escolhido? Arre, se ao menos eu pudesse falar, se não houvesse ainda essa boca de esquilo, esses dentes, eu sem dúvida gritaria bem alto, reclamaria horas a fio com alguém, ah, se não fossem esses pêlos, ainda de esquilo, eu voaria até encontrar o culpado, onde quer que esteja. Não fosse meu minúsculo tamanho, eu também o mataria, sim, o mataria! Ah, se não fossem essas patas... Esse rabo!

Rômulo Costa, 6 de junho, Taguatinga.

Comentários

  1. Anônimo6/6/12

    Muito bom !
    De: Gustavo F.

    ResponderExcluir
  2. Excelente texto, companheiro. Sempre me impressiono com sua escrita. Parabéns.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Quincas Borba (1891) - resenha

Sem revelações significativas do enredo. “Ao vencedor, as batatas”, tal é a frase que Pedro Rubião repete do início ao fim de Quincas Borba , de Machado de Assis. Trata-se de um enunciado proferido inicialmente pelo filósofo do título, numa tentativa de explicar ao referido Rubião sua doutrina, denominada por ele Humanitas. Assim, a situação hipotética de um campo de batatas e duas tribos famintas é evocada. Quincas Borba, então, propõe: Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. [...] Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas. (ASSIS, M. “Quincas Borba”. Sedregra, Rio de ...

Sobre feminismo e marcha das vadias

          Aconteceu em São Paulo, no último sábado (25), a terceira marcha das vadias. O protesto teve origem no Canadá, em 2011, motivado pelos diversos casos de abuso sexual ocorridos na Universidade de Toronto em janeiro do mesmo ano. Na ocasião, um policial aconselhou que as mulheres evitassem se vestir como “vadias” (slut, em inglês) para não serem vítimas de eventuais abusos. Aproveitando-me da recente marcha realizada em São Paulo, abordarei nesta postagem a minha opinião sobre o evento e sobre o feminismo em geral. Há, em primeiro lugar, uma confusão com o termo “feminismo”. Uma pesquisa rápida no google permite notar que há compreensões bastante variadas dessa palavra que tendem, muitas vezes, a sugerir que seria o correspondente contrário do machismo. Existe um site muito interessante que nos mostra o que não é feminismo¹. E “supremacia feminina”, “guerra dos sexos” – termos frequentemente relacionados à pesquisa por “feminismo” na web – não o são. ...

A morte de Ivan Ilitch e a morte de todos nós

"Caio é um homem, homens são mortais, logo Caio é mortal." - o mais clássico dos exemplos de silogismo e o axioma máximo de nossa existência. No entanto, meu amigo, isso não se aplica a você. Primeiramente, quem é Ivan Ilitch? É o personagem principal de A morte de Ivan Ilitch do escritor russo Liev Tolstoi (Leon em algumas versões), publicada pela primeira vez em 1886, é considerada por muitos como a obra-prima de Tolstoi e uma das obras máximas da literatura russa. Gastaria umas boas linhas descrendo a história e o personagem em toda sua complexidade, então, para resumir: Ivan Ilitch o homem ao qual a idéia da morte apavora. O silogismo acima aparece quase ao fim da história: O exemplo de um silogismo que aprendera na Lógica de Kiezewetter, “Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal”, parecera-lhe a vida toda muito lógico e natural se aplicado a Caio, mas certamente não quando aplicado a ele próprio. Que Caio, ser abstrato, fosse mortal estava absolutamen...