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Sobre feminismo e marcha das vadias

         Aconteceu em São Paulo, no último sábado (25), a terceira marcha das vadias. O protesto teve origem no Canadá, em 2011, motivado pelos diversos casos de abuso sexual ocorridos na Universidade de Toronto em janeiro do mesmo ano. Na ocasião, um policial aconselhou que as mulheres evitassem se vestir como “vadias” (slut, em inglês) para não serem vítimas de eventuais abusos. Aproveitando-me da recente marcha realizada em São Paulo, abordarei nesta postagem a minha opinião sobre o evento e sobre o feminismo em geral.
Há, em primeiro lugar, uma confusão com o termo “feminismo”. Uma pesquisa rápida no google permite notar que há compreensões bastante variadas dessa palavra que tendem, muitas vezes, a sugerir que seria o correspondente contrário do machismo. Existe um site muito interessante que nos mostra o que não é feminismo¹. E “supremacia feminina”, “guerra dos sexos” – termos frequentemente relacionados à pesquisa por “feminismo” na web – não o são. Se “revanchismo” não é feminismo, então o que é? O movimento feminista está relacionado à luta contra a repressão feminina que, ao contrário do que muitos pensam, existe e é muito claramente perceptível. O feminismo é, seguramente, uma resposta ao machismo, mas isso não significa dizer que seja o contrário dele. O comportamento machista está tão presente na realidade brasileira quanto o racista. Este, porém, é velado, negado pela miscigenação, enquanto que o outro é mais comumente observado no cotidiano.
A crença popular nos leva a pensar que a situação das mulheres já está estabilizada, que não há mais discriminação nem repressão, mas a análise empírica nos mostra justamente o contrário. As pessoas adotam uma postura abertamente machista, principalmente no que diz respeito ao comportamento das mulheres. A fala do policial canadense deixa claro o pensamento machista, que rotula de “vadia” a mulher que se veste de determinada forma. Também são assim chamadas as mulheres que possuem uma vida sexualmente agitada sem parceiros fixos. Não é socialmente aceitável que a mulher tenha esse tipo de comportamento. A repressão sexual contra a mulher é um fato. As expressões utilizadas cotidianamente possuem raízes machistas e frequentemente apontam para o lugar da mulher na sociedade.
Tendo explicitado sobre a ideia geral do movimento feminista, gostaria de tratar de algumas questões relativas ao que falei no final desse último parágrafo. Vejo muitos adeptos do feminismo defenderem as letras de música com conteúdo altamente sexual, as quais são compostas por mulheres. Abstenho-me aqui de tratar do gênero musical Funk e da qualidade de suas letras, afim de não me prolongar muito num discurso sobre preconceito musical. Compreendo a importância que esses feministas atribuem a cantoras como Valesca Popozuda, no sentido de expressar a libertação sexual feminina, mas questiono até onde isso não passar a ser “objetificação” da mulher, justamente o que o movimento feminista tenta combater. Penso que as pessoas em geral não reprovam o fato de serem mulheres cantando músicas com essa temática, mas sim existirem músicas com essa temática. Ao mesmo tempo, entendo que a resistência para com as mulheres explorarem essa temática é muito maior do que para com os homens, dado o comportamento socialmente esperado delas. Pergunto-me também se algumas manifestações dessas cantoras não adotariam um comportamento revanchista em relação aos homens. Fica lançada a questão.
Antes de expor minha opinião sobre a marcha das vadias, gostaria de atentar ao fato de que muitas mulheres sofrem agressões todos os dias. Não me refiro apenas a agressões físicas, mas também a agressões verbais, que são as mais comuns. Basta andar pela rua usando uma roupa minimamente chamativa para que se atraiam comentários dos tipos mais desagradáveis. Afirmo: mexer com uma pessoa na rua é sim uma agressão. Não basta apenas terem que ouvir comentários dos piores tipos, as mulheres também não podem reagir a eles, pois se espera (por parte dos agressores) que os comentários sejam vistos como elogio e que devem ser aceitos.
Posso agora dar minha opinião sobre a marcha das vadias e o movimento feminista. Vejo a marcha como um protesto válido, com bons motivos, mas não concordo com todas as manifestações do dito feminismo. Quando se transforma o órgão sexual feminino em objeto de “divinização”, adota-se um comportamento correspondente contrário do machista. Ademais, tal atitude parece ser contrária ao que o próprio feminismo luta. Não entrarei em considerações sobre aquilo que Freud chama “inveja do pênis”, pois muito pouco conhecimento possuo sobre o assunto e corro o risco de falar besteira. Acabei deixando a postagem muito maior do que gostaria, mesmo deixando de tratar de muitos pontos importantes, mas senti a necessidade de comentar o tema com pouca distância da data de realização da marcha. Não fiz nenhuma pesquisa aprofundada e nem um levantamento de dados para esse texto. Encerro a postagem por aqui. Obrigado pela leitura e até a próxima, não se esqueça de comentar!

Renan Almeida.

Notas
1 - http://issonaoefeminismo.tumblr.com/

Comentários

  1. Gostei da sua reflexão sobre o assunto, estava conversando com o Matheus justamente sobre a parte em que você coloca uma confusão com o termo “feminismo”. Também achei interessante o que você fala sobre a Marcha das Vadias, eu já conhecia o histórico, mas muito pouco sei sobre o movimento atualmente.

    Abraços,
    Adália.

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    Respostas
    1. Olá, Adália. Obrigado por comentar! Essa confusão com definições não se limita ao feminismo. Quando debato sobre um determinado assunto com alguém sempre pergunto a definição da pessoa sobre o tema do debate, para não causar mal entendido.

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  2. Nathália Marques31/5/13

    Bom texto, amor. Você conseguiu relativizar o tema e expressar sua opinião. Também me incomodo com as letras revanchistas! Espero que haja mais letras por ai que falem sobre mulheres de verdade e seus conflito em todos os gêneros musicais.

    Bju,
    Nath.

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    1. Obrigado pelo comentário, amor. Espero que as mulheres alcancem seu espaço não só na música, mas também em muitos outros aspectos da vida social. Porém, devemos atentar para de que maneira isso é feito e evitar extremismos ideológicos. Beijos.

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    2. Vcs são lindos!!!!

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  3. Stella Hadassa31/5/13

    Muito interessante o modo como você discorreu sobre o tema! O termo "feminismo" sempre me deixou meio confusa, e seu texto clareou algumas das minhas dúvidas e me incentivou a continuar pesquisando sobre isso. Esperarei pelas próximas postagens!

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    1. Stella, muito obrigado pelo comentário! Fico feliz em saber que há pessoas que acompanham as postagens. Vamos alimentar os debates. :)

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  4. Anônimo5/6/13

    Muito bom seu texto...achei muito enriquecedor seu ponto de vista...parabéns! tens talento ;)

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