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Ciência no cotidiano? Cidadão cientista?

“Posso não concordar com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo”.
Você provavelmente já viu ou ouviu essa frase em algum lugar. E tem certeza que ela é autoria de Voltaire, aquele importante filósofo francês do século XVIII. Você já viu tanto essa frase por aí que não vê nenhum problema em afirmar que Voltaire realmente disse isso. Contudo, uma rápida pesquisa no Google põe em cheque essa convicção. Pode surpreender dizer que Voltaire provavelmente nunca disse isso.
Quem se lembra daquele vídeo o qual mostra que Einstein supostamente teria refutado os argumentos de um professor seu ateu quando ainda era uma criança? Pois é, Einstein também não fez isso. A história desse vídeo, como desvendou o E-farsas, é falsa, e ele mais parece ser uma propaganda. As pessoas que citam a frase acima atribuída a Voltaire nunca se dão ao trabalho de indicar onde, exatamente, o filósofo disse isso. Disse em alguma obra? Qual? Disse em uma palestra? Quando? Pra quem? Como se sabe disso hoje? A mesma coisa com o videozinho sobre Einstein. Como se sabe que Einstein disse isso em sua infância? Algum biógrafo relatou isso? Quem? Qual o nome de sua obra e em qual página?
Por que falo disso? Porque frequentemente as pessoas falam do que não sabem, do que não leram, só reproduzem o que é dito por terceiros. É por isso que a citação é tão importante no mundo acadêmico. Quando se se refere a algum autor em um texto acadêmico, quando se se reproduz uma frase sua ou a parafraseia deve-se sempre fazer uma citação no corpo do texto (SOBRENOME, ano, página) com a referência bibliográfica ao final (autor, título da obra, editora, local de publicação, ano de publicação, etc.). É claro que não dá para exigir isso no dia-a-dia.  
“Os fins justificam os meios”.
Essa outra é atribuída a Maquiavel. Porém, este nunca disse semelhante coisa. Se disse, não foi nem em “O Príncipe” nem nos “Comentários Sobre a Primeira Década de Tito Lívio”, suas obras mais importantes. Muito provavelmente, algum comentador achou que essa frase sintetizaria o pensamento do filósofo florentino, o que está longe de ser verdade. E com a mesma propriedade com que alguns atribuem frases a pensadores que não as disseram, outros falam de Marx sem terem lido, pelo menos, o primeiro capítulo do livro um do primeiro volume de “O Capital”. Não leram sequer uma linha de Marx, ou talvez no máximo O Manifesto do Partido Comunista, um texto panfletário, bastante simplificado, mas saem por aí criticando sua teoria, afirmando que ele é contra qualquer tipo de propriedade. Pior do que isso, só marxista que não lê Marx. O mesmo, então, se faz com o feminismo. Critica-se tanto o feminismo, mas pouco se sabe que esse é apenas um termo genérico para designar algo que abarca uma infinidade de vertentes, muitas até contraditórias entre si. Quase sempre se parte do “ah, as feministas que eu conheço são assim”, “as que eu conheço são assado”, “feminismo é o contrário de machismo”, “não vou ouvir porque os argumentos são sempre previsíveis”. A pessoa tira uma conclusão dessas (que o feminismo é o contrário de machismo, por exemplo) sem nem sequer pegar uma autora feminista e ler o que ela fala. Certamente, essa pessoa não sabe diferenciar uma Mary Wollstonecraft de uma Sojourner Truth.
Depois da mordida, é hora do assopro. Todos nós falamos de coisas que não conhecemos bem, isso é normal, afinal, não sabemos de tudo. Não há nada de errado nisso. Só acho que deveríamos reconhecer isso sempre, dizer “beleza, podemos conversar sobre isso, mas não tenho muito conhecimento do assunto”. Além disso, estar sempre disposto a aprender. Parar de dizer “Partido X é mais corrupto que Y” sem dizer a partir de que se pode afirmar isso. Começar a dizer “com base nesse levantamento do instituto Z, que mostra o ranking de partidos envolvidos em escândalos de corrupção, afirmo que o partido X é mais corrupto que o Y”. Besteira minha? Comente. 

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